Quando Softwares Deixam de ser Pessoais

Como ferramentas como o Notion trocaram sua alma por um lugar na mesa corporativa — e como a IA acelerou isso.

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Quando o Software Deixa de Ser Para Pessoas

Existe um tipo específico de tristeza em assistir um software que você amava crescer e esquecer de onde veio. Não o tipo de tristeza que dá raiva. Mais como ver um amigo mudar aos poucos depois de conseguir um emprego corporativo. Ele ainda é ele. Tecnicamente. Mas algo está diferente.

Tenho pensado muito nisso ultimamente, principalmente sobre o Notion.

A Promessa: Uma Ferramenta Que Parecia Sua

Quando o Notion apareceu, ele parecia diferente. A proposta era simples e humana: um espaço para suas notas, seus projetos, sua vida. O Notion dos primeiros tempos tinha uma energia que dava pra sentir. Os templates eram criativos, a comunidade construía dashboards pessoais absurdos, as pessoas compartilhavam trackers de hábitos, listas de leitura e sistemas operacionais de vida. Era software pessoal, feito por gente que realmente se importava com a forma como indivíduos pensam e se organizam.

E não era só impressão. O plano gratuito era generoso. O design era limpo sem ser estéril. Você podia moldar do jeito que precisasse. Um estudante organizando as notas do semestre, um freelancer tocando o negócio inteiro, alguém só tentando guardar receitas num lugar só.

Antes: Dashboards pessoais. Wikis de vida. Uma tela em branco que parecia possibilidade. Templates compartilhados pela comunidade, para a comunidade.

Agora: Conectores enterprise. Selos de conformidade SOC 2. Add-ons de IA a $10/mês. A landing page começa com "para equipes" antes de qualquer outra coisa.

A Virada Que Ninguém Comenta

Em algum momento, o Notion começou a derivar. As funcionalidades começaram a chegar não porque os indivíduos estavam pedindo, mas porque os compradores corporativos estavam. Permissões avançadas. Provisionamento SCIM. Logs de auditoria. O tipo de coisa que deixa um CISO feliz, mas não significa nada para alguém tentando organizar a faculdade.

Eu entendo. Empresas pagam mais, cancelam menos e assinam contratos anuais. Um único contrato enterprise pode valer milhares de assinaturas individuais. É só matemática.

Mas tem um custo. E o custo é a identidade.

"O Notion tenta ser tudo e acaba sendo medíocre na maioria das coisas. É uma ferramenta de banco de dados incrível fingindo ser um app de notas fingindo ser um gerenciador de projetos." — um usuário do Reddit

Os templates padrão migraram de sistemas pessoais para planejadores de sprint e trackers de OKR. Os preços empurraram usuários pessoais a pagar por funcionalidades que nunca usariam. Toda a gravidade do produto mudou.

Aí a IA Piorou Tudo

Quando o Notion lançou o Notion AI como um add-on pago, por usuário, por mês, pareceu uma confirmação. A ferramenta que antes parecia generosa agora cobrava centavo por centavo por autocomplete.

E isso não foi exclusivo do Notion. Toda ferramenta de produtividade passou pela mesma transformação em 2023-2024:

  • Notion adicionou IA a $10/usuário/mês
  • Coda pivotou forte para automação enterprise
  • O Evernote renasceu como um zumbi corporativo depois que a Bending Spoons comprou
  • Todoist, Obsidian, até o Apple Notes correram para adicionar IA, alguns com mais graça que outros

O padrão é sempre o mesmo: pegar algo pessoal, empilhar funcionalidades enterprise, cobrar mais.

Software Sem Ponto de Vista

O que me incomoda não é que o Notion virou uma ferramenta B2B. É que ele perdeu o que o tornava interessante no processo. Dá pra atender empresas e ainda ter personalidade. O Figma faz isso. O Linear faz isso. O Slack, com todos os seus defeitos, ainda parece um produto com opiniões sobre como comunicação deveria funcionar.

O Notion cada vez mais parece não ter opinião nenhuma. É uma tela em branco cercada de upsells enterprise. O produto não representa mais nada. Ele representa o que a sua organização precisa que ele represente, e tudo bem para uma ferramenta, mas é a morte de um produto.

O Que Eu Realmente Quero

Não quero que software fique congelado no tempo. Quero que evolua com intenção, com clareza sobre para quem é e no que acredita.

Alguns apps ainda acertam nisso:

  • Obsidian — local-first, markdown, seus arquivos na sua máquina. IA opcional que respeita a soberania dos seus dados.
  • Raycast — feito para desenvolvedores e power users, sem pedir desculpa.
  • Linear — gerenciamento de projetos opinativo. Rápido, limpo, comprometido com uma filosofia específica.

O ponto em comum: essas ferramentas sabem quem são.

A Verdade Desconfortável

Eu ainda uso o Notion. Ele funciona. Mas "funciona" é a coisa mais condenatória que você pode dizer sobre um software que um dia te deixou empolgado.

O melhor software não só funciona. Ele reflete um jeito de pensar. Faz você sentir que as pessoas que o construíram entendiam algo sobre você. Quando essa sensação desaparece, você não para de usar. Só para de se importar.

E essa é a verdadeira perda. Não que o Notion ficou ruim. Ele ficou esquecível. Para um produto que um dia pareceu o futuro de como organizamos nossos pensamentos, isso é muito pior.

Uso o Notion desde 2020 e escrevo isso com genuíno carinho pelo que o produto um dia representou. A mudança que descrevo não é exclusiva do Notion, é um padrão da indústria toda. Mas o Notion é o que mais dói porque prometeu algo diferente.